A NR-1 não é apenas responsabilidade do trabalhador

    Um ponto importante é evitar uma interpretação equivocada. Gerenciar riscos ocupacionais não significa colocar sobre o trabalhador a responsabilidade de “aprender a lidar melhor” com uma organização do trabalho inadequada. Prevenção envolve identificar os fatores de risco e buscar medidas de controle. Isso exige participação de diferentes áreas.

    Gestores, profissionais de SST, RH, lideranças e trabalhadores podem ter diferentes perspectivas sobre o mesmo problema. E justamente por isso o diálogo se torna importante.

E onde entra o líder?

    O líder está em uma posição particularmente interessante. Ele não é necessariamente quem define todas as regras da organização, mas está muito próximo da rotina das equipes.

É o líder que percebe quando determinado funcionário está acumulando tarefas.

É o líder que participa das reuniões.

É o líder que distribui atividades.

É o líder que acompanha metas.

É o líder que muitas vezes recebe reclamações antes que elas cheguem ao RH.

Por isso, discutir NR-1 também significa discutir liderança.

Não para transformar o gestor em psicólogo.

    Mas para desenvolver lideranças capazes de reconhecer problemas relacionados à organização do trabalho e encaminhá-los adequadamente.

E o trabalhador, precisa fazer o quê?

Participar também significa falar.

Se existe um problema recorrente na execução do trabalho, ele precisa ser comunicado.

Se uma atividade apresenta risco, precisa ser relatada.

Se determinada rotina está causando dificuldades, isso precisa chegar aos responsáveis.

    A prevenção não funciona bem quando existe uma cultura em que ninguém fala porque acredita que “não vai adiantar”. Uma empresa pode possuir excelentes políticas de segurança. Mas, se o trabalhador não se sente seguro para falar sobre os riscos que encontra, existe uma distância entre aquilo que está escrito e aquilo que realmente acontece.

    A grande mudança talvez seja cultural. A nova discussão sobre a NR-1 não deveria ser resumida à pergunta: “Minha empresa está cumprindo a norma?”

Uma pergunta mais interessante seria: “Minha empresa realmente conhece os riscos presentes na forma como o trabalho acontece?”

São perguntas diferentes.

    A primeira olha para conformidade. A segunda olha para a realidade. E as duas precisam caminhar juntas.

    Segurança também é olhar para o cotidiano. O futuro da segurança e saúde no trabalho passa por uma visão cada vez mais ampla. Não basta olhar somente para a máquina. É preciso olhar para quem opera a máquina. Não basta olhar para o procedimento. É preciso observar como o procedimento funciona na prática. Não basta olhar para a meta. É preciso compreender como ela é alcançada. Não basta perguntar se o funcionário recebeu treinamento. É preciso entender se ele possui condições adequadas para executar seu trabalho. É nesse espaço entre o que está escrito e o que realmente acontece que muitos dos grandes desafios das organizações aparecem.

Afinal, o que mudou para quem acorda todos os dias para trabalhar?

    A vida do trabalhador não muda automaticamente porque uma norma foi atualizada. Uma norma, sozinha, não transforma uma empresa. O que pode mudar é a forma como organizações passam a identificar, discutir e gerenciar determinados riscos relacionados ao trabalho. E talvez essa seja a principal oportunidade. Fazer com que segurança e saúde deixem de ser assuntos lembrados apenas quando acontece um acidente, uma fiscalização ou um problema grave.

E passem a fazer parte da conversa cotidiana.

    Porque existe uma pergunta que toda organização deveria conseguir responder:"O trabalho que estamos organizando hoje está ajudando as pessoas a trabalhar com segurança e saúde?”. Se a resposta ainda não estiver clara, talvez seja hora de olhar novamente para o trabalho real.

Altivânio Alt - Autor do blog.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por que nasceu este blog sobre NR-1?

A NR-1 saiu do papel? O que isso muda na vida do trabalhador?