O que são riscos psicossociais?

Essa expressão pode parecer complicada, mas a ideia é mais simples do que parece.

Os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho estão ligados à forma como o trabalho é organizado e realizado e às condições em que ele acontece. Por exemplo: 

  • Excesso de trabalho: quando a quantidade ou o ritmo das atividades é incompatível com os recursos disponíveis.
  • Baixa autonomia: quando o trabalhador possui pouca possibilidade de participar ou tomar decisões relacionadas à execução de seu trabalho.
  • Falta de clareza: quando a pessoa não sabe exatamente quais são suas responsabilidades, prioridades ou expectativas.
  • Conflitos: quando problemas nas relações profissionais se tornam frequentes e prejudiciais.
  • Assédio: situações de violência ou constrangimento que podem atingir a dignidade e a saúde do trabalhador.
  • Falta de apoio: quando o trabalhador não encontra suporte adequado de colegas ou gestores diante das dificuldades.
  • Pressão excessiva: quando a cobrança ultrapassa limites razoáveis e passa a contribuir para um ambiente prejudicial.

Esses exemplos mostram uma coisa importante: o risco nem sempre está na máquina. Às vezes, ele está na maneira como o trabalho é organizado.

Então a NR-1 fala de depressão e ansiedade? É preciso ter cuidado com essa interpretação.

A NR-1 não deve ser entendida como uma norma que simplesmente determina que toda empresa precisa “tratar a ansiedade” ou “acabar com o estresse”. A questão é mais ampla. A empresa precisa olhar para os riscos relacionados ao trabalho, identificá-los, avaliá-los e adotar medidas de prevenção e controle quando necessário. Por isso, falar em saúde mental no trabalho não significa transformar o ambiente profissional em um consultório psicológico.

Significa reconhecer que a forma como o trabalho é organizado pode influenciar a saúde das pessoas e que a prevenção também precisa considerar esses fatores.

Um exemplo muito simples: Imagine duas empresas.Nas duas, os trabalhadores possuem exatamente a mesma profissão.

Na primeira:

● as atividades são planejadas;

● as responsabilidades são claras;

● existe comunicação entre liderança e equipe;

● as demandas são distribuídas;

● existem pausas adequadas;

● os problemas são discutidos;

● o trabalhador sabe a quem recorrer quando encontra uma dificuldade.

Na segunda:

● tudo é urgente;

● as metas mudam constantemente;

● ninguém sabe exatamente quem é responsável por cada tarefa;

● as pessoas recebem mensagens de trabalho a qualquer hora;

● existe cobrança pública;

● a equipe está sempre reduzida;

● os conflitos são ignorados;

● o trabalhador tem medo de conversar com a liderança.

Qual dessas empresas apresenta um ambiente potencialmente mais favorável à saúde dos trabalhadores?

A resposta parece óbvia. E é justamente esse tipo de reflexão que ajuda a compreender a importância de olhar para os riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

NR-1 não é responsabilidade apenas do RH! Esse é outro ponto importante. Quando se fala em saúde mental no trabalho, muita gente pensa imediatamente:

“Isso é assunto do psicólogo.”

Ou:

“Isso é responsabilidade do RH.”

Mas a prevenção de riscos ocupacionais envolve diferentes áreas e, principalmente, precisa fazer parte da própria gestão da empresa. A liderança também possui um papel fundamental.

A forma como um gestor distribui tarefas, estabelece prioridades, comunica mudanças, cobra resultados e conduz conflitos pode fazer parte do contexto de trabalho que precisa ser analisado. Por isso, falar sobre NR-1 também é falar sobre gestão, liderança, segurança, saúde e organização do trabalho.

E o trabalhador? Precisa fazer alguma coisa?

Sim.

O trabalhador também é parte importante desse processo. Ele precisa conhecer os riscos existentes em sua atividade, participar das ações de prevenção e comunicar situações que possam representar riscos à sua saúde e segurança. Mas existe uma diferença fundamental: não podemos colocar toda a responsabilidade sobre o trabalhador. Não adianta simplesmente ensinar alguém a “controlar o estresse” se a origem do problema está em uma organização de trabalho inadequada.

Imagine alguém trabalhando diariamente com excesso de tarefas e ouvindo: “Você precisa aprender a administrar melhor o seu tempo.”

Talvez ele precise mesmo. Mas também é necessário perguntar: 

  • A quantidade de trabalho é razoável?
  • Existe pessoal suficiente?
  • As prioridades estão claras?
  • O prazo é possível?
  • A organização está contribuindo para o problema?

Essa mudança de pergunta é fundamental. A empresa precisa olhar para a causa, não apenas para o efeito

Se vários trabalhadores estão constantemente exaustos, por exemplo, a solução não deveria ser simplesmente oferecer uma palestra sobre “como lidar com o estresse”.

É necessário investigar.

  • Por que essas pessoas estão sobrecarregadas?
  • Como o trabalho está organizado?
  • Existe excesso de demanda?
  • Existe falta de pessoal?
  • As metas são compatíveis com a realidade?
  • As pausas estão sendo respeitadas?
  • Existe comunicação adequada?
  • Há conflitos ou situações de violência no ambiente?

Perceba a diferença. Cuidar da saúde mental não significa apenas ensinar o trabalhador a suportar um ambiente ruim. Também significa olhar para o próprio ambiente e buscar prevenir aquilo que pode estar causando ou agravando os riscos.

Altivânio Alt - Autor do blog.

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